Velas e Flores

Cheiro de vela, de flores, sons de pessoas rezando, uma movimento diferente do habitual. Acordo e é uma manhã ensolarada de primavera, bem típica. É o dia de Finados, que para mim sempre foi um dia com uma aura diferente. A casa dos meus pais ficava na rua de trás do Cemitério da Saudade, em Apucarana. Rua Erasto Gaertner. Olhava pela janela do meu quarto e, subindo em uma cadeira, conseguia ver as pessoas andando por entre os túmulos, e depedendo da direção do vento eu conseguia ouvir a missa. Durante a semana que antecedia o Finados dava pra ver as pessoas chegando com baldes e vassouras para lavar os túmulos e jazigos. Atos de amor, sentimentos de obrigação, honra aos que se foram. Li uma vez que os mortos recebem mais flores que os vivos porque o remorso é mais forte que a gratidão.

Se por culpa, por gratidão, por amor ou por simples tradição, as homenagens aos falecidos nesse dia sempre me comoveram. Comovem-me ainda mais agora que as pessoas que eu mais amava se foram. Tiro uma hora da minha manhã para trazer de volta as lembranças desse dia. Lembro-me da minha mãe uns dias antes indo com meus avós lavar o jazigo da família; o vô Carleto ligava e avisava: fala pra sua mãe que daqui a pouco passo aí para ir ao cemitério. E lá vinha ele, com seu Chevette bege, porque o cemitério onde a bisavó estava enterrada era longe de casa. E no dia de Finados ele voltava, para buscar minha mãe para levar flores. Daí uns anos, era a ele que as homenagens seriam prestadas, e meu tio Ricardo fazia o papel que cabia ao meu avô. Mais uns anos, e se foram todos. Minha avó, meu pai, minha mãe, meu tio. E tantos outros familiares e amigos que hoje me são trazidos pela memória. Sinto-me triste pela ausência deles, e ao mesmo tempo grata por ter desfrutado de sua companhia na terra.

Independentemente das crenças pessoais a respeito da morte, se é o fim ou se é o começo, se há ou não reencarnação, o dia de Finados serve a um propósito muito nobre: nos fazer parar por um momento em nossas vidas tão corridas, tecnológicas, midiáticas e elevar nosso pensamento àqueles que foram importantes para nós. O fato é que não estão mais aqui, e nos fazem falta. Saudades, pai, mãe, vô, vó… Espero poder reencontrá-los um dia.

IMG_9840

foto do meu arquivo pessoal, novembro de 1993.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s